O Júbilo das Artes

A Mirateca Arts colocou os Açores no mapa. Será a Vila da Madalena o palco que, de 19 a 30 de Junho, irá receber artistas de todos os cantos do planeta. Este foi um texto escrito acerca da iniciativa “Descobrir Açores”, que agora partilho com os “ouvintes” do Pavilhão Auricular:

E eis que se acabaram as brumas, levantaram-se as névoas; o céu lavou-se dos flocos de algodão flutuantes e floriu o desfiladeiro para uma passagem aberta. O vento bafeja agora a brisa profícua das mulheres e dos homens que trazem luz ao mundo: os criadores.

??Os olhares encaminham-se para o alto – para o azul-celeste – que acasala com a imaginação dos mestres da criatividade, parece não mais encerrar fronteiras. Os músicos, compositores e maestros da orquestra do infinito interrompem o concerto para ouvir com clareza o som da anunciação da novidade, e os pintores de aguarelas cristalinas levantam as barbas do pincel e sentem as pupilas dos olhos dilatarem para o que há muito esperavam: a luz! Os escultores dão descanso à solda, ao escopro, ao suor, e sentem o calor da descoberta nas peles arrepiadas. Os escritores, os autores e os poetas pousam o lápis no papel, afundam a pena na tinta e saem à rua, ao descampado: querem compreender o acontecimento. O segundo acto não chega a ser terceiro, pois o palco do teatro vê-se desprovido dos actores, actrizes, encenadores e figurantes que atravessam a plateia em direcção ao lado de fora, à multidão. Os desenhistas e desenhadores, arquitectos, ilustres ilustradores ilustrativos deixam os traçados da cartolina e os ecrãs de computador ermos, desamparados, abandonados, e juntam-se à folia da revolução. Os mestres da fotografia e da imagem retratada abdicam do estúdio para se aliar ao júbilo do talento e convidam os cineastas, argumentistas e realizadores da sétima arte a assistir a um filme totalmente diferente, a uma epopeia da criação. O relojoeiro, o artesão e o costureiro abandonam as modas e caminham de braço dado. As televisões emitem zero, as rádios cospem estática, a internet parou, estacou, congelou. Estão todos à espera. Do quê?

Do anúncio. Da notícia que espalha que este é o primeiro dia! Não apenas um dia soalheiro e quente, tão quente como o amor que os criadores derramam no seu trabalho, mas um dia em que essa faina vai finalmente viajar, tomar os palcos do mundo, ver a luz, tornar-se luz! Sentem-se suspensos, leves, de rédeas soltas, e nem sequer o céu pode ser o limite. Nem sequer a luz imensa os pode cegar, porque é de luz e de palmas que eles vivem.

Agora estão preparados: hoje receberam um voto de confiança, uma consagração reconfortante, um repto estimulante. Sabem que o dia de amanhã será diferente, que irá trazer boas colheitas. Pois, se antes viviam de costas voltadas uns para os outros, por desconhecimento ou afastamento, pelo mar que separa os nove ilhéus, pela inoportunidade que vingou ou pelas inconstantes marés revoltas, agora podem encher o peito de ar! E podem soprá-lo aos velames dos seus batéis e transformá-los em caravelas, em naus de guerra. Mas de uma guerra saudável, de uma batalha legítima: a luta pelo conhecimento.

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Mas o que é o conhecimento, o saber, a genialidade de um povo? Não está na sua cultura, nos seus hábitos, nas suas representações? Nas suas artes? Não é o talento que lidera, não é a inspiração do artista que inspira a ciência e o progresso? Não é o palhaço triste que nos faz sentir homens e mulheres humildes? Não é a música que tanto nos faz vibrar e sonhar como chorar? Não é nos livros que está a nossa e a vossa sabedoria? Não é a dança dos cisnes que nos faz voar? Não é o desenho ilusório e o quadro que nos impressiona e nos faz pensar, duvidar? Não são os pensadores que dão origem às ideias? Não é desse pensamento que provêm soluções? Então, o que aconteceu? Porque demorastes tanto tempo a chegar a essa conclusão?

Pois bem. Então, digo-vos: pensar é criar, imaginar é conceber, mostrar é existir. E é apenas isso que os criadores almejam: mostrar. Sempre o quiseram. Os artistas açorianos sempre desejaram desvendar o seu lado primoroso. Agora podem, entre si – e para si. Por isso mesmo, vamos descobrir, vamos descortinar os dons das ilhas. E ao povo declamam: obtende os nossos livros, discos e bilhetes de espectáculo; bradai bem alto e em bom som, profetizai as nossas telas, fotografias e desenhos; enaltecei aqueles que só pedem as vossas palmas!! E nunca, mas nunca esqueçais: um povo sem cultura simplesmente não existe.

Eis que o pano sobe, ouvem-se as palmas, a ovação de pé, o público ao rubro com as emoções da criação. Vão agora desvendar, finalmente perceberam. Vão Descobrir Açores no Fringe Festival!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Junho de 2013
in Jornal Mundo Lusíada (Brasil), 17 de Junho de 2013

A Convocação do Inferno

“Summoned Hell”: o nome sonante deixa qualquer saboreador de metal com a curiosidade espicaçada, deixando no ar uma sensação de clichê. Não o cliché proveniente do francês, insinuante de “repetição”, mas o que se relaciona com o metal propriamente dito. O meu gosto neste género musical é muito afunilado, talvez até demasiado exigente. Nem tudo me apraz, e nem sempre consigo colocar por vocábulos os motivos pelos quais…

Os sete elementos originais conotaram-se no estilo de Melodic Black Metal, no primordial mês de Junho de 2004. Alguns ajustes e normais mudanças no line-up no período que antecedeu 2008, mudou esse label para Melodic Death Metal. O álbum que desejo partilhar convosco é o culminar desse primeiro trilho, tendo os trabalhos sido iniciados em 2010. “Prison of Madness” é uma prisão de loucura que nos apreende os sentidos – e a pena é prolongada!

E eis que o pano abre…. A candeia que alumeia na frente é “Heart of Dust”, e dá início às hostilidades. O coração de poeira transporta-nos impecavelmente para o oriente nos seus primeiros instantes. Ovação de pé para Stephan Kobiakin: os solos de teclado são sobrenaturais, perfeitos. Este músico tem já um grande percurso, mas adivinho um ainda maior pela frente! Também neste tema, embora também no restante disco, difícil é não nos apercebermos da duração dos screams de Hugo Almeida; fácil é perdermos o fôlego logo a seguir. A execução é exemplar, temos aqui um vocalista a respeitar!

As mentes doentias de “Sick Minds” abrem caminho com excelente trabalho de Pedro Costa nos timbales, e a “In Sorrow” transborda arrependimento, enquanto a “Dead Men Song” diz-nos o que se ouve, vindo do inferno. Poder-se-ia definir “Storms of Insanity” como uma genuína libertação da loucura, de uma forma suave e melódica – se é que se pode efectivamente definir. Os licks de guitarra são deliciosos!

“Summoned Hell”, o tema com o mesmo nome do projecto, projecta-nos numa dimensão alucinante, que me fez ouvir os primeiros quarenta e cinco segundos repetidas vezes até conseguir encaixar a espectacularidade da sonoridade abrasadora!!! Um autêntico inferno melodioso! Aos 3:21 descobri um autêntico manjar para stereo addicts, garanto que vale a pena ouvir várias vezes!!! Aos 4:01, recebemos uma sugestão muito educativa, embora pouco religiosa, e entramos numa roda viva de bateria e baixo. Muito simples, mas que nos abre caminho para uma crescente série de pequenos orgasmos harmónicos até ao final da música.

Na faixa número sete, “Farewell” sorve uma bateria bem “torneada”. Suspiros desconcertantes. Estonteantes cinco minutos e meio; mais uma vez falam em dívidas por pagar. Embora se tratem de outro tipo de dívidas, o pre-chorus está muito bem escrito: “and though sometimes a bound can brake, a new strong one forms and awakes, for your crimes you’ll pay so there you stand, bring the coins, pay the dead and meet me on the dammned land.” Mas ainda assim acreditam, no refrão: “I believe in your soul, but it’s doomed to paradise”. Depois temos a clássica melodia “dos cisnes”, seguida de uma vertiginosa odisseia de solos e execuções mestrias, principalmente dos teclados, num ritmo que nos transmite vontade de saltar – e mais que isso, até! Um êxtase de ritmo, power e harmonia! Em seguida, “Dammed Place” representa uma das mensagens mais fortes deste álbum. Amaldiçoa os “falsos deuses” da sociedade moderna, “aqueles em que votamos e escolhemos para ditar as regras que depois nos corrompem”.

Os alucinantes 7 minutos iniciais de “Symphonic”, desvendam teclados incrivelmente rápidos e sincronizados com os solos de guitarra e com a “marcação cerrada” da viola baixo de Paulo Arruda. Outro tema que invoca vocábulos fortes, seguidores do “canto da sereia”, “reis” poderosos, falsos profetas e promessas, anarquia, escassez… Surpresa aos 2:20: uma dança hipnótica de ballet!, seguida por licks de guitarra reveladores. E quando pensávamos que o tema não tinha nada mais de novo para trazer, outro solo de guitarra nos espanta até ao fim. Já “Sin of Lies” é um discurso directo para alguém que abusa da mentira e do pecado: uma forma de fechar o trabalho com chave de ouro.

A formação de Hugo Almeida (guitarras e voz), Ruben Ferreira (guitarra), Pedro Costa (bateria), Paulo Arruda (viola baixo) e Stephan Kobiakin (teclas), parece bem equilibrada e com muito para oferecer. O poder das letras enriquece o trabalho e aumenta o interesse do ouvinte que se identifique com os temas. No entanto, e depois da obra gravada, há três coisas em que é necessário apostar: promoção, promoção e… promoção! Estes estilos musicais dentro das várias vertentes do metal que as nossas ilhas produzem precisam chegar além fronteiras, mas depois, quando isso acontece, ainda carecemos de feedback na origem! Caso isso se contrariasse, talvez se conseguisse levar a nossa música AINDA mais longe! – sim, porque temos qualidade para isso; passem palavra, que a música açoriana agradece!

Mas efectivamente sim, as cantiguinhas ficaram-me na aurícula!