Tremorização cultural

2c319810c2b111e3bc650002c99cddfc_8O ano era o de dois mil e catorze e estávamos com uma dúzia de dias de abril. Era meio da tarde, o Sol a três quartos do arco. Meti o panfleto desdobrável no bolso e seguimos caminho. Parecia que a cidade se tinha inclinado para a baixa e que todas as pessoas tinham deslizado para os mesmos sítios. O resto dela estava deserto. A ilha tremera dois dias antes, e pensei: que bela promoção! Impulsionar um evento desta natureza não é tarefa fácil, mas orquestrar um Tremor a esse nível seria elevar a fasquia para a escala de Mercalli, atribuindo-lhe intensidade imensurável.

Parecia estar tudo a postos, e estava mesmo. Depois, fiquei zangado. Zanguei-me por não ser ubíquo, omnipresente. Queria ser mosca para ver e ouvir tudo. Compreendo e louvo o conceito do festival, mas desejei mesmo estar em todos os palcos. E não consegui. Algumas salas estavam completamente lotadas, não só com público, mas com bom gosto também. Tudo sinais de que havia vida na cidade.

O riquíssimo programa prometia: replays alternativos da guitarra apaixonada e os ecos inebriantes do bracarense Gonçalo no Hostel 3/4 e mais tarde na Travessa dos Artistas; a voz arrepiante da talentosa micaelense Sara Cruz a dar asas ao Cantinho dos Anjos; Nuno Rodrigues a dedicar moda à Duquesa na Londrina; os inconfundíveis Ricardo Reis, Paulo Bettencourt, Luís Senra, Luís Sousa e Ricardo Silva, que são o mundo de Lulu Monde, a jogar em casa, num jam jazzístico da Travessa dos Artistas; as harmonias do guitarrista portuense Jorge Coelho a incendiar o Ateneu Criativo; o one man show David Santos, multi-instrumental conhecido por Noiserv, a encher o Teatro Micaelense; os blues cada vez mais carismáticos dos micaelenses Self Assistance no Baía dos Anjos; o pop eletrónico indie lisboeta dos Sequin para fazer sonhar o Ateneu; a guitarra experimentalista de Rui Carvalho, o Filho da Mãe, a ecoar pela apaixonante e icónica Igreja de Santa Bárbara; a gentileza utópica dos sons de Teresa Gentil na Tasca; Miguel Nicolau e Marco Franco a darem reminiscência lisboeta à Memória de Peixe no Ateneu Criativo; o punk imparável dos The Glockenwise a agitar o Baía dos Anjos; o avant-rock do trio alternativo portuense Torto no Arco 8; o psicadelismo devocional de Óscar Silva a emprestar o folk nortenho a Jibóia e a transfigurar o mesmo Arco 8; e ainda Rui Maia a.k.a. Mirror People a trazer vida sintetizada ao Ateneu.

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Também se desenharam cenários improváveis: Jibóia da Mãe foi uma Jibóia misturada com um Filho da Mãe na Galeria Fonseca Machado; Miguel Nicolau aliou-se a Jorge Queijo para uma Tasca animada; o deejay micaelense NEX com o veejay argentino Federico Lamas no Ateneu Criativo; e ainda cinema, com “Música em Pó” de Eduardo Morais no Cineclube de Ponta Delgada.

10154396_642909849098098_8303259542936828049_nNuma coorganização da produtora Lovers & Lollypops e a Yuzin Agenda Cultural, de salientar foram as mais de trinta parcerias efetuadas com espaços comerciais do centro histórico da cidade e a quantidade diversificada de ambiências surpreendentes. Foi uma tremorização cultural. A perfeição é uma série de pequenas coisas bem feitas, e o Tremor esteve muito perto disso. Até as imperfeições foram perfeitas. Soube tão bem que devia ser proibido. Se o Tremor foi magia, deve existir um ilusionista. Ou vários. Nós sabemos que foram vários. A música esteve sempre a servir de pano de fundo, mas o Tremor estava por toda a parte. Desejam-se réplicas mais fortes desta experiência para daqui a um ano. Até lá, o Tremor fica na aurícula.

Mariana, a soberana

A soberania é um conceito difícil de alcançar. Há quem acredite que tal patamar não existe, sequer. Os egípcios falavam em faraós, os gregos em supremos governos, os romanos em imperadores, os plebeus em reis e rainhas, os portugueses em Camões e os açorianos em Pauleta e Nelly Furtado. O poder de um soberano é a soberania propriamente dita, mas é uma autoridade insípida. Usar uma coroa pode parecer imponente, mas pode ser um peso incómodo; a não ser que se seja uma princesa, porque as tiaras aparentam leveza e graciosidade. As coroas de papelão das festas de aniversário, que toda a gente já usou, são mais fáceis de descrever: se descontarmos a comichão que provocam no pescoço, leveza maior não pode existir. Uma coroa de espinhos também não soa a dominância, mas muita tinta e sangue na Bíblia deu a derramar. Já uma coroa de flores significa ocupar o primeiro lugar, subir ao pódio e fazer uma vénia para receber a medalha.

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Foi para isso que Mariana Rocha fez a mala: para subir ao palanquim e ganhar uma medalha de um tal de factor xis. Mesmo que fosse o factor ípsilon, ou , ela estaria lá. O motivo é simples: Mariana, a soberana, tem os três. Ou mais: Mariana Rocha reúne todas as características de uma stage woman, todas as qualidades de uma protagonista, todos os atributos de uma grande intérprete, todos os fatores inerentes a uma verdadeira artista.

16 anos. Quem é que tem 16 anos e canta assim? Ninguém. Assim, como ela, só ela própria, só a Mariana Rocha em pessoa. Não interessa até onde ela pode chegar — que vai ser muito longe —, não interessa se assina contratos com multinacionais, se vai gravar em Abbey Road, se lança uma dúzia de discos, com direito a quádrupla platina dourada com rebordo em diamante, se ganha os próximos Emmys ou os MTV Awards. Não interessa, porque Mariana, a soberana, já ganhou. Ganhou fãs, aplausos, ovações de pé, sorrisos, abraços, alegrias e palcos. Sim, porque os palcos também se ganham. Melhor ainda: merecem-se! Mariana merece os palcos.

Mariana-2Este domingo, enquanto uma parte adormecida deste País em pantanas vai ressonar em frente ao escrutínio de segredos, o lado acordado da sociedade vai aplaudir e votar na soberana: na Mariana. Porque sabem que ela tem aquele ingrediente especial. Mariana contagia com a sua simplicidade, o sotaque indisfarçado, a ousadia e o à-vontade de uma verdadeira entertainer. Enche as salas com energia positiva, sem falsos protagonismos, e leva a voz colocada, controlada, cheia de spring e calor de veraneio.

E que orgulho tem esta terra numa jovem tão promissora, tão cheia de energia e alegria? A força deste povo consegue concentrar-se numa única pessoa, e talvez seja isso que vai acabar por acontecer. Mariana vai carregar a força de gente que quer singrar, vencer, chegar longe! A voz dela será o somatório das nossas.

Os Açores podem ser insularidade e desunião geográfica, mas não há povo igual no que toca a dar as mãos. Quando o chão treme e os vulcões se agitam, os açorenhos cerram os punhos e chamam os problemas a si, desafiam-se à união. Mesmo quando as brumas se espalham sobre águas agitadas, pelos tufões, tempestades e mau tempo, este povo une as vozes e sopra bem alto para limpar o céu, para trazer bom tempo, para abrir canais.

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E agora há uma explicação para quando a terra treme e os vulcões se agitam: é porque a Mariana está a cantar. E quando os céus trovejam? É porque os deuses estão a lançar os dados… e a apostar na soberana.

Os palcos são teus, Mariana. Vais ficar definitivamente na aurícula. E este povo está contigo!

in jornal Correio dos Açores, 28 de Novembro de 2013

Haja saúde com lágrimas

— Haja saúde! — disse-me o Luís, à entrada. — Home’, vocês que entrem e estejam à vontade! ­— ele recebia os convidados como se estivesse à porta de sua casa. De certa forma, estava: era “uma casa portuguesa, com certeza”, mas eu diria “uma casa açoriana e não engana”. A casa arcana, a que o Luís tão carinhosamente apelidou de “tasquinha”, era o Teatro Ribeiragrandense.

4081367514194A cidade da “grande ribeira”, cada vez mais capital cultural da açorianidade, exalava nostalgia naquele quinze de Junho. A arena do teatro estava diferente: tresandava a talento, fado e saudade. No meio das cadeiras em tecido cor-de-sangue, corria nas veias dos presentes um calor alterado. Sim, viam-se sorrisos, abraços e boa disposição; nada disso era novidade, sempre que aquele homem estava por perto, mas o sabor agridoce tinha também entrado no salão.

E eis que se baixam as luzes. Depois de cavaquear com um e com outro pela plateia, Luís Gil Mendes Bettencourt sobe ao palco pela frente. Senta-se ao microfone e rejeita modestamente o caloroso aplauso que lhe é dedicado.
— Não é preciso nada disso — disse ele. Explicou que queria momentos de à-vontade e convidou os presentes a recolher um dos imensos copos de Angelica que aguardavam na berma do palanque. Antigamente, era comum acenderem-se isqueiros durante as baladas. Agora, imaginem uma plateia inteira a erguer copos de licor.
— Haja saúde! — brindou ele. O público correspondeu. E bebeu talento. Até pouco antes das doze badaladas, Luís conduziu-nos por uma viagem no tempo. Atrás dele, três tímpanos imponentes. Ao lado, um segundo microfone. Rodeado de guitarras clássicas, de folk, uma guitarra eléctrica e uma Viola da Terra, fez rodopiar emoções num trajecto que emocionou.

Foi com o tema “Dreams” que abriu as hostilidades daquela noite magnífica, ao que ele chamou de “teledisco foleiro”, mas que marcou uma geração que via a RTP Açores e que repetia: at the end of the road I see hope. A moda “luisbettencourtista” continuara com “If There’s a Reason”, cujo vídeo era “uma espécie de Avatar da altura” — palavras do próprio —, o que só vem provar o seu lado visionário.

Luís confessou que vai apoiar a carreira da filha. Maria subiu ao palco e desbravou o seu timbre doce e com um grasp cada vez mais controlado. O duo também brindou o público com “More Than Words”, ao que Luís sublinhou que “aquela pancadinha é minha”, referindo-se ao abafar as cordas com os nós dos dedos que se tornou mundialmente célebre. São coisas das quais não se conseguem registar direitos de autor. É difícil esquecer o que acontece quando Luís Gil Bettencourt agarra numa guitarra, qualquer que seja. As dedadas frenéticas e os strums prestidigitadores magnetizam qualquer apreciador, e são o símbolo do que eu gostaria de chamar a “bettencourtização” da música.

Neste “Antes que a Voz me Falte”, Luís mostrou um lado saudosista, mas a voz não lhe faltou.
— Vocês vêm ao meu funeral e aplaudem? — desabafou ele, contrariando o sabor a despedida. Falou com ironia do problema que lhe alterou os planos para o futuro.
— Na Terceira, a gente chama de tosse. Vocês sabem o que é tosse? — arrancou gargalhadas da plateia.

Na que foi considerada a última grande actuação “cantada”, falou de um novo disco “Coisas Alheias”, ou seja, não se vai desligar da música. Não acreditamos e não queremos que o faça. Uma das provas de que isso não pode acontecer foi o momento mágico em que pegou na Viola da Terra. Com a sala iluminada q.b., um holofote descia directamente sobre ele; embatia no espelho no cimo da “viola dos dois corações” e produzia um efeito deslumbrante: o delicado feixe luminoso derramava-se pela sala, como um farol que nos guia a bom porto. No final, ouviram-se os tímpanos e a trompa a acompanhá-lo. Depois, desabafou acerca de nem sempre sentir que pertence aos palcos:
— Vocês fizeram-me sentir como se eu pertencesse aqui! — e as lágrimas humedeceram a sala.

A ovação de pé foi interrompida por ele. Diz não gostar de palmas. Se assim não fosse, o aplauso merecia durar até ao dia seguinte.

Luís Gil Bettencourt não ficou na aurícula: já vivia lá! E queremos continuar a ver o nome dele nos cartazes!

Haja saúde!

O Júbilo das Artes

A Mirateca Arts colocou os Açores no mapa. Será a Vila da Madalena o palco que, de 19 a 30 de Junho, irá receber artistas de todos os cantos do planeta. Este foi um texto escrito acerca da iniciativa “Descobrir Açores”, que agora partilho com os “ouvintes” do Pavilhão Auricular:

E eis que se acabaram as brumas, levantaram-se as névoas; o céu lavou-se dos flocos de algodão flutuantes e floriu o desfiladeiro para uma passagem aberta. O vento bafeja agora a brisa profícua das mulheres e dos homens que trazem luz ao mundo: os criadores.

??Os olhares encaminham-se para o alto – para o azul-celeste – que acasala com a imaginação dos mestres da criatividade, parece não mais encerrar fronteiras. Os músicos, compositores e maestros da orquestra do infinito interrompem o concerto para ouvir com clareza o som da anunciação da novidade, e os pintores de aguarelas cristalinas levantam as barbas do pincel e sentem as pupilas dos olhos dilatarem para o que há muito esperavam: a luz! Os escultores dão descanso à solda, ao escopro, ao suor, e sentem o calor da descoberta nas peles arrepiadas. Os escritores, os autores e os poetas pousam o lápis no papel, afundam a pena na tinta e saem à rua, ao descampado: querem compreender o acontecimento. O segundo acto não chega a ser terceiro, pois o palco do teatro vê-se desprovido dos actores, actrizes, encenadores e figurantes que atravessam a plateia em direcção ao lado de fora, à multidão. Os desenhistas e desenhadores, arquitectos, ilustres ilustradores ilustrativos deixam os traçados da cartolina e os ecrãs de computador ermos, desamparados, abandonados, e juntam-se à folia da revolução. Os mestres da fotografia e da imagem retratada abdicam do estúdio para se aliar ao júbilo do talento e convidam os cineastas, argumentistas e realizadores da sétima arte a assistir a um filme totalmente diferente, a uma epopeia da criação. O relojoeiro, o artesão e o costureiro abandonam as modas e caminham de braço dado. As televisões emitem zero, as rádios cospem estática, a internet parou, estacou, congelou. Estão todos à espera. Do quê?

Do anúncio. Da notícia que espalha que este é o primeiro dia! Não apenas um dia soalheiro e quente, tão quente como o amor que os criadores derramam no seu trabalho, mas um dia em que essa faina vai finalmente viajar, tomar os palcos do mundo, ver a luz, tornar-se luz! Sentem-se suspensos, leves, de rédeas soltas, e nem sequer o céu pode ser o limite. Nem sequer a luz imensa os pode cegar, porque é de luz e de palmas que eles vivem.

Agora estão preparados: hoje receberam um voto de confiança, uma consagração reconfortante, um repto estimulante. Sabem que o dia de amanhã será diferente, que irá trazer boas colheitas. Pois, se antes viviam de costas voltadas uns para os outros, por desconhecimento ou afastamento, pelo mar que separa os nove ilhéus, pela inoportunidade que vingou ou pelas inconstantes marés revoltas, agora podem encher o peito de ar! E podem soprá-lo aos velames dos seus batéis e transformá-los em caravelas, em naus de guerra. Mas de uma guerra saudável, de uma batalha legítima: a luta pelo conhecimento.

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Mas o que é o conhecimento, o saber, a genialidade de um povo? Não está na sua cultura, nos seus hábitos, nas suas representações? Nas suas artes? Não é o talento que lidera, não é a inspiração do artista que inspira a ciência e o progresso? Não é o palhaço triste que nos faz sentir homens e mulheres humildes? Não é a música que tanto nos faz vibrar e sonhar como chorar? Não é nos livros que está a nossa e a vossa sabedoria? Não é a dança dos cisnes que nos faz voar? Não é o desenho ilusório e o quadro que nos impressiona e nos faz pensar, duvidar? Não são os pensadores que dão origem às ideias? Não é desse pensamento que provêm soluções? Então, o que aconteceu? Porque demorastes tanto tempo a chegar a essa conclusão?

Pois bem. Então, digo-vos: pensar é criar, imaginar é conceber, mostrar é existir. E é apenas isso que os criadores almejam: mostrar. Sempre o quiseram. Os artistas açorianos sempre desejaram desvendar o seu lado primoroso. Agora podem, entre si – e para si. Por isso mesmo, vamos descobrir, vamos descortinar os dons das ilhas. E ao povo declamam: obtende os nossos livros, discos e bilhetes de espectáculo; bradai bem alto e em bom som, profetizai as nossas telas, fotografias e desenhos; enaltecei aqueles que só pedem as vossas palmas!! E nunca, mas nunca esqueçais: um povo sem cultura simplesmente não existe.

Eis que o pano sobe, ouvem-se as palmas, a ovação de pé, o público ao rubro com as emoções da criação. Vão agora desvendar, finalmente perceberam. Vão Descobrir Açores no Fringe Festival!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Junho de 2013
in Jornal Mundo Lusíada (Brasil), 17 de Junho de 2013

Adriana Calcanhotto: a brasileira açoriana

Faltava cerca de hora e meia para comemorarmos quarenta anos menos um da passagem do hino histórico de Zeca Afonso “Grândola Vila Morena” na rádio, em sinal de início de revolução, e já o Teatro Micaelense estava revolucionado. Na segunda sessão consecutiva de casa cheia, Adriana da Cunha Calcanhotto subiu ao palco e recebeu o caloroso aplauso de boas-vindas.

Monumento aos Açorianos

Monumento aos Açorianos

A aclamada cantora e compositora brasileira, também conhecida por Adriana Partimpim, falou da particularidade emocional de actuar nos Açores, principalmente devido às suas origens: Porto Alegre é a cidade-capital do estado de Rio Grande do Sul, fundada por casais açorianos no século XVIII, na sequência do Tratado de Madrid e por ordem do rei português: o “Largo dos Açorianos” ostenta o monumento onde se pode ler “jamais sonhariam aqueles casais açorianos, que da semente que lançavam ao solo nasceria o esplendor desta cidade”. Hoje em dia com quase um milhão e meio de habitantes, a metrópole fundiu-se novamente com as suas origens, desta feita através da música emblemática de Calcanhotto, que confessou ter finalmente percebido o porquê de os açorianos terem escolhido Porto Alegre para viver — “um lugar onde também faz quatro estações num dia”, disse ela.

Filha de um baterista de jazz e de uma bailarina, recebe um violão quando chega à meia dúzia de primaveras e deixa-se influenciar pela música popular brasileira. Enquanto cresce, actua em alguns bares da cidade-natal, no seu estilo inconfundível de “uma mulher e o seu violão”. Lançou “Enguiço” em 1990 e não mais parou, os discos de estúdio seguiram-se: “Senhas” (1992); “A Fábrica do Poema” (1994); “Maritmo” (1998); “Público” (2000); “Cantada” (2002); “Maré” (2008); e “O Micróbio do Samba” (2011). Nos álbuns infantis, iniciou-se com o badalado “Adriana Partimpim” (2004), vencedor do Grammy Latino 2006. Depois, “Partimpim Dois” (2009) e recentemente “Partimpim Tlês” (2012).

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

O encore trouxe “Fico Assim Sem Você”, depois da enormidade de êxitos que desfilaram entre a doce voz e os dedos teimosos no violão. É incrível como a simplicidade enche recintos! Outro dom que o povo brasileiro tem, além da sonoridade cadenciada do sotaque, é a partilha. Sim, devíamos aprender com eles. Muito banalmente trocam letras, melodias e composições, interpretam-se uns aos outros sem preconceitos.

Enfim, Adriana fica na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 3 de Maio de 2013
in Jornal Paper.li #MPB (Brasil), 3 de Maio de 2013
in Revista Arepa Salsa Jazz (Brasil), 6 de Junho de 2013

O terceiro coração da Viola da Terra

Fui questionado uma vez acerca da forma como anuncio as datas nos textos das crónicas: “mas, podias escrever a data, pura e simplesmente… para quê escrever ‘vinte dias e mais um’, quando ‘21’ diria o mesmo?” É uma questão pertinente, mas a resposta é simples: convida o leitor a exercitar a mente. Enquanto faz as contas para chegar ao veredicto, fomenta mais uma dúzia de sinapses e ligações neuronais. Vai lembrar-se dos pormenores com mais facilidade, senão vejamos….

Coração MúsicaEstávamos no nono mês do ano zero da década de oitenta, quando a freguesia de Ribeira Quente festejava o segundo dia após o vigésimo – digam lá se não vos aguça! Mesmo que não se recordem amanhã de manhãzinha, esse vigésimo segundo dia terá seguramente honras de feriado – no amanhã colectivo. Porquê? Simples: para homenagear um rapaz, que agora é homem, e que graúdo será certamente. Mas não um homem qualquer: um daqueles com um agá grande!

Em conversa com uma tertúlia de poetas da nossa praça, foi PENA termos chegado à conclusão de que o sucesso e reconhecimento artístico acontece – por inúmeras vezes – depois da partida do artista. Sou inequívoco advogado do oposto: se há mérito, tem de ser reconhecido, enquanto ainda há um reconhecido a reconhecer. Não é possível descrever o perfume de uma flor sem a farejarmos. Adiante.

Quantas vezes tem este tal homem marcado a diferença? Incontáveis. Será possível quantificar o seu contributo para a cultura das ilhas de bruma? Começa a ser difícil. Teve o pai como mentor no violão e Carlos Quental como professor nos corações. Juntou-se a Ricardo Melo e Ana Medeiros para fazer nascer Música Nostra e brotar Cantos da Terra; os mesmos cantos que percorreram quase todas as ilhas açóricas, Fnac’s do continente e Bruxelas! Levou o nome verde maduro dos Açores a Castro Verde, partilhando os palcos com Pedro Mestre da Viola Campaniça, José Barros da Viola Braguesa e Vítor Sardinha da Viola de Arame Madeirense. Não satisfeito, ainda experimentou a bravura de nos trazer Chico Lobo da Viola Brasileira! Ainda a procissão estava no adro, e esta criatura já juntava o tradicional com o electrónico: chamavam-lhe o Projecto Azorecombo, definido como um concerto de transmutações, onde partilhou as sonoridades com a dupla Miguel Carvalhais/Pedro Tudela e ainda Vítor Joaquim. As actuações sucedem-se, por exemplo, em aventuras museológicas por Vila Franca do Campo, ao lado dos grandes tocadores Dinis Raposo (uma vénia ao fadista!), e Carlos Estrela, a convite do grande e dinâmico antropólogo Professor Doutor Rui de Sousa Martins; e até por grutas carvoeiras, a sua mais recente dinâmica. Sim, a Gruta do Carvão é um espaço dinâmico, acusticamente falando e não só – parabéns pela iniciativa!

Rafael Carvalho

E eis que o pano se abre, e se descortina que o tema central de toda esta azáfama é a Viola da Terra. Alguns também a tratam por Viola de Arame, ou “aquela dos dois corações, o que parte e o que fica”, mesmo que se ponham frente a frente a micaelense e a terceirense. A sua alma já ganhou vida por lendários – e muitos vivos – literários, mestres da palavra que me recuso a imitar, declino a responsabilidade de enumerar os seus simbolismos, de falar da lágrima da saudade, do açor oculto, do cordão umbilical, das plantas, do trigo, do ás de oiros

Estamos aqui a celebrar os feitos, as Conversas à Viola, o enaltecimento da arte, nua e crua, e da passagem da palavra. Sim, porque Rafael Carvalho não tem apenas conseguido fazer. Rafael Carvalho é também um pregador, um missionário, um apóstolo! Divulga, difunde e ensina a Viola da Terra. Contribuiu largamente para evitar a extinção de uma tradição, que se adivinhava próxima. Quer seja pelo dinamismo empregue na Escola de Viola da Terra e Violão da Ribeira Quente, pela entrega conseguida junto à Escola de Viola da Terra do Grupo Folclórico da Fajã de Baixo, pelo exemplar desempenho no Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela comemoração do Dia da Viola da Terra, pela irrepreensível direcção musical da Orquestra de Violas da Terra, ou mesmo pelo empreendedorismo semeado na Associação de Juventude Viola da Terra.

Rafael Carvalho é dono do terceiro coração da Viola da Terra! Aqui fica o reconhecimento. Aqui fica um bem haja! Despeço-me ao som do seu registo “Origens”, que fica certamente na aurícula…. e na História da cultura açoriana!

in Jornal Terra Nostra, 08 de Fevereiro de 2013

Cantos de Dutra

E eis que somos presenteados com mais um ano, novinho em folha! Depois de cinquenta e duas semanas de labuta e total entrega – com trunfos e metas alcançadas em alguns casos, expectativas e sonhos defraudados noutros –, cá estamos com outras trezentas e sessenta e cinco oportunidades que nos são oferecidas, de bandeja. É com esse espírito de positividade que o Pavilhão Auricular saúda os seus leitores, e dirige um enorme agradecimento pelo interesse demonstrado em mais um ano de resenhas musicais: muito obrigado!

Raquel DutraTambém passível de ser consagrado numa bandeja – excluindo um bom prato culinário, que desperta os sentidos mais intrínsecos do ser –, é o mais recente trabalho da jovem micaelense Raquel Dutra. No trigésimo dia do undécimo mês de dois mil e doze, as portas vidradas do nosso sublime Teatro Micaelense escancararam-se para deixar passar os ares da música popular açoriana. A apresentação do trabalho “Cantos do Mar e da Terra”, que se previa decorrer inicialmente no Salão Nobre daquela casa emblemática, acabou por se transcrever para o palco principal, tal foi o ajuntamento ao nobre evento. Uma azáfama de povo excitado com o que iria advir inundou o átrio e foi presenteada com uma ainda maior roda-viva: folclore, cantado e dançado de forma distinta, declarada e regada com alegria e boa disposição. A efervescência dos aplausos migrou então para a sala principal, onde nos aguardavam uma guitarra clássica, uma viola da terra e um microfone para a artista intérprete, ermos em cima do palco.

“Teremos espectáculo com tão pouco?”, retumbavam alguns comentários arrojados. Não faziam a menor ideia do que dali viria, certamente. As luzes diminuíram lentamente a sua intensidade, no mesmo compasso em que o tom da conversa reduziu, como se o operador baixasse um fader de volume ao mesmo tempo que o da iluminação. Os músicos tomaram os seus lugares, e a entrada de Raquel Dutra – acompanhada pelo seu característico Bandolim – fez o público vibrar num caloroso aplauso. Depois de uma dúzia de entusiásticos acordes, uma pausa foi orquestrada para a apresentação de Teresa Tomé. Saudou o público com palavras sentidas, calmantes e verdadeiras; falou do projecto e da música açoriana com verdadeiro ardor e paixão.

A viagem que se seguiu foi de puro encantamento e magia. A Viola da Terra mostrou estar em perfeita sintonia com a destreza de Adílio Soares; os dedos do pai, Jorge Dutra, dançaram ritmados e certeiros pelo braço e pelas cordas da Guitarra Acústica; até Raquel conseguiu provar que é possível adicionar a esta amálgama – de si própria, muito rica –, mais um conjunto de cordas: as do Bandolim. E como se não bastasse, como se a magnificência deste trio de cordas não nos embalasse o suficiente, surge a voz. Como descrevê-la? Pela sua polidez, brandura e harmonia? Sim. Pela elegância, distinção e classe? Também. Mas talvez seja melhor o leitor ouvir com a sua própria aurícula para depois dizer se não concorda.

Numa panóplia sentida de música lírica açoriana, esta passa a ser uma obra de referência. Assim o é, não só pela qualidade impressa em todo o trabalho – desde o grafismo digno e incensurável de um maestro das artes desenhadoras, até à produção e edição impecáveis e imaculadas, passando pela execução primorosa dos músicos e da afinação de Raquel –, mas também pelo critério da escolha do repertório. Em vez de compilar temas sobejamente conhecidos da tradição açoriana – o que não faria mal a ninguém –, este projecto tem a ousadia e originalidade de dar corpo a músicas praticamente desconhecidas do quotidiano regional.

O disco presenteia-nos com doze faixas deliciosamente sine qua non do ponto de vista lírico, com origens nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial, Pico e São Jorge. Os arranjos são da autoria dos próprios, mas respeitam as particularidades de cada música, e até a história que a acompanha. Isto merece uma ovação de pé! É um sinal de que ainda há muito boa gente – boa gente, mesmo! – interessada nas nossas raízes. Um grande motivo para que…. a cançoneta fique na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Janeiro de 2013

Sonasfly, o pseudónimo voador

Sonasfly WingsNum enorme regozijo de crescentes manifestações nas artes açorianas, não restam dúvidas – até para os mais cépticos – da galopante aparição de talentos, até agora ocultados pelas névoas das quase dez ilhas. No entanto, alguns sobressaem, brilham, evidenciam-se. Sílvia Torres é uma graciosa intérprete açórica que viu a luz do dia em 1981 e que arranhou o primeiro conjunto de seis cordas amarradas a um corpo de violão treze anos depois. O Grupo Folclórico do Porto Formoso acolheu-a com um impulso das lides tradicionais. Desde então, não tem parado.

Foi com um feeling de mistério que o Auditório Luís de Camões abriu portas no primeiro dia deste último mês. A perfeição acústica da sala recebeu espectadores suficientes para acalorar uma actuação que se previa mais concorrida, não fosse a excelência da organização da manager Cláudia Chaves Neves, e a expectativa criada em torno do projecto nos tempos precedentes: parabéns à promoção! Depois do convívio no exterior, atravessei o corredor e aproximei-me de um lugar sentado: satisfeito, apercebi-me da presença da rádio aliada do projecto, na pessoa do incansável Miguel Valério. São essas parcerias que eliminam os obstáculos do mar que separa os artistas!

Eis que baixam as luzes e o espectáculo é inaugurado: Vasco Pernes provou mais uma vez porque é considerado um perito da comunicação, ao recomendar com intermilhas toda a iniciativa. Os pés desnudos de Sonasfly tomaram conta do palanque e o público aplaudiu para o espectáculo que usurpou o nome ao disco: “O Outro Lado de Mim”. Não faltava absolutamente nada: a gravação vídeo para a posteridade por uma equipa de anfíbios, a captação áudio a cargo do calejado (faça-se uma vénia) Raúl Resendes, boa malta preparada para fazer ruído, e até a direcção musical – diga-se, excelentíssimo senhor produtor executivo! – orquestrada com os dedos vibrantes colados à viola-baixo dançante de Williams Maninho Nascimento.

Sonasfly AlignmentO alignment ficou muito bem posicionado – embora a ideia original de sentar os músicos em aconchegados divãs deixasse a audiência invejosa. Paulo Vicente fartou-se de nos brindar com os seus já reconhecidos e aprimorados dotes teclísticos, Paulo Rosa Martins mostrou-nos o que era a exactidão na percussão, Vasco Cabral trasladou os solos na guitarra eléctrica, e Dinis Geraldes fez o favor de ritmar os afoitos dedilhados na guitarra acústica. Como se não bastasse, irrompeu a meio do show, o saxofone feiticeiro de Michael Smith!

Sonasfly brindou o público – todos eles Talvez Ilhéus – com aquilo que eu considero uma feroz actuação, tal Carousel. A artista demonstra ter uma qualidade intrínseca, difícil de encontrar em tamanha dose: expressividade! A faculdade de conseguir exteriorizar, espelhado no rosto e corpo, o que cada palavra falada e cantada a faz sentir. Enfim, mostrou o Why de ser Guilty e que sabe ser uma Bitchy Girl quando é preciso Make it Through, independentemente de God lhe querer cantar uma Lullaby n’Um Segundo por Ti.

A fechar com chave de ouro, Bárbara Azevedo sentou-se em frente ao teclado e vez vibrar a sala com o som apaixonante do piano. Como se não bastasse, fez um dueto imprevisível com Sílvia Torres, no que eu agora considero ter sido sine qua non! Um apontamento bastante positivo vai para as duas back vocals escolhidas; além de Bárbara, a já conceituada Marina Pimentel brindou-nos com a doçura e segurança das suas cordas verbais.

O disco apresentado foi gravado em estúdio pelo audacioso Eduardo Botelho, emparelhado com os graciosos arranjos ilusionistas de Mário Jorge Raposo. Deram corpo às letras sentidas de Sílvia Torres e aos pré-arranjos de Tó Moreira. Este álbum tonifica-se com o single Carousel, cujo vídeo foi vencedor do prémio internacional da RightOutTV para o “Best Video DIY”. Está recheado de simbolismo e faz o favor de nos deixar a pensar. Life can be a carousel, diz ela. Tell me: are you ready?, estão prontos para comprar o cd?

Já para o final do evento, a falha sonora do lado direito quase passou despercebida, embora corrigida com afinco. Apesar da exímia promoção do espectáculo de lançamento, é pena o auditório não ter abarrotado: esperava-se uma enchente e é preciso saber o porquê para afinar a organização do próximo concerto – sim, porque o público pediu encore.

Como apologista de promoção, tenho que oferecer uma ovação de pé a Cláudia Neves, indubitavelmente uma revelação talentosa com prodígio suficiente para por de pé um concerto desta natureza. É preciso dispor de muita coragem, tempo e dinamismo para o fazer – sim, porque o dinamismo vale guita, a meu ver: e nada se faz sem ela. Parcerias inteligentes, contactos bem orquestrados, promoção bem na mouche e destreza de movimento! Parabéns, ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Dezembro de 2012

Um Código para decifrar

Sou indubitavelmente suspeito, por motivos diversos e incontáveis, mas há projectos que temos mesmo que apregoar. Por mérito próprio! Os critérios de selecção são normalmente simples: basta terem um pé nos Açores – mesmo que o outro estacione noutro lugarejo qualquer. Seria suficiente para mim que a qualidade pautasse as condutas musicais do colectivo, ou mesmo que a aurícula retivesse as frequências emitidas pelos instrumentos musicais deles. Posso até acrescentar que me daria por satisfeito se alguma harmonia e consistência fosse suficientemente generalizada num artista ou grupo! Pois é, mas…. esperem! E se num só embrulho me fossem entregues todos estes predicados? E se uma mescla de músicos criativos e melodiosamente inteligentes me fossem apresentados e assim anunciados à saída do cinema? Simplesmente não acreditaria. Teria que ver para crer ou, no nosso caso – ouvintes e consumidores de notas musicais –, “ouvir para crer”! Assim o fiz: naveguei esperançado na “Hope Song” e não me arrependi. Vamos então começar a decifrar o código dos “THE CODE”  (sim, porque isto ainda agora começou!).

Félix Medeiros, guitarrista já conhecido das nossas lides regionais – e que se prepara para “pular a cerca” com a sua formação musical, – surge com uma execução de ritmo em guitarra acústica irrepreensível. Normalmente é preciso avisar “take it easy, play gently!”, mas ele já tem a lição estudada. Como se isso não bastasse, enclausura-se também na guitarra eléctrica e faz tremer as cordas com veemência e fervor. Demonstra impavidez e uma evolução bastante significativa, não só em termos de execução como de maturidade. Além disso, relança a sua índole inconfundível de compositor.

Agora passa a ser preciso fazer continência a João Bettencourt. Já estávamos habituados à sua fluidez nas baquetas, à sua paixão areada nas peles da bateria, mas desta vez acrescentou uma qualidade: rigor na execução. Exímio!

Grafismo da autoria do designer Miguel Maia.

André Ferreira confessa que o estúdio foi uma experiência nova, mas essa sensatez e cuidado transpareceram para a viola-baixo que ele tanto abraçou. Está na senda certa!

As oitenta e oito teclas brancas e pretas do piano olharam para cima com êxtase: era Hugo Medeiros que se preparava para lhes deitar as mãos, literalmente. As falanges delicadas e cuidadosas do pianista fizeram ecoar a acusticidade de um piano que surge muito bem enquadrado.

Da mesma forma que se deixa a cereja do bolo para a última garfada – e eu até nem gosto de cerejas, mas a frase fica bem aqui –, deixei para o final a rapariga que conheci de olhos vendados na capa de um livro de ficção que anda por aí. De olhos tapados andávamos todos, e por tempo demasiado. Então porque foi a Marisa Oliveira ocultar um talento tão evidente com tanta procrastinação? Por onde andou esta piquena? O grasp inquietante da sua voz andou escondido. O feel energético e potente das intérpretes gospel foi muito bem revelado na “Hope Song”! Mas ainda a vejo – ou melhor, oiço – num registo que evidencie mais essas características do seu instrumento musical: um estilo que não deixe de destacar as notas altas, mas que enfatize os seus graves enriquecidos com aquele vibrato inquietante!

Félix Medeiros e Marisa Oliveira

E vós perguntais: mas onde vês – ou ouves – isso tudo, quando a moça apenas cantou uma cançoneta? E a vossemecês mesmos eu respondo: já vi e ouvi isso algures, talvez num futuro aproximado, talvez em delírios, maybe in a place, far, far away! Mentira, porque isto vai acontecer aqui mesmo, debaixo dos nossos narizes. Porque os “The Code” são um projecto regional, mas não foram concebidos “à regional”!

Uma das muitas provas disso mesmo é a imagem que passa cá para fora. Se algum senso comum for dirigido ao design empregue na imagem deste projecto, a conclusão a que se chega é que não estão a brincar em serviço. Miguel Maia demonstra que tem o toque especial que é fulcral para se destacar dos demais. Sorrateiramente, este designer - que também é brother in arms - vai deixando marcas relevantes no panorama editorial e de imagem de marca do nosso mercado e além-fronteiras. Quando derem por si, estarão rodeados da sua simbologia mágica, cativante e original: um profissional a seguir com muita atenção!

Bom, mas toca a trabalhar, rapazes (e rapariga)! E não se esqueçam de continuar a divulgar. Promoção, promoção – só depois vem a emoção! E o mais importante? A canção ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 9 de Novembro de 2012

Os Queen estão vivos!

São sete e dez, Post Meridian. Ao subir as escadas do Underground, a sensação de ver surgir a fachada do Dominion Theatre é de se lhe tirar o chapéu. Do lado oposto da Tottenham Court Road, nem mesmo a azáfama do trânsito, nem sequer a altura dos red buses de dois andares retiram a grandeza do vulto dourado de Freddie Mercury, na sua pose enigmática.

Um funcionário do teatro passeia-se no exterior com um pequeno cartaz, apregoando descontos nos últimos bilhetes da sessão, provavelmente resultantes de alguma desistência. “Last tickets, discounts!”, anuncia ele. Os responsáveis pelas portas olham o relógio, conferindo que falta um quarto de hora para o começo do espectáculo, e abrem alas de pontualidade britânica. Um cardume de espectadores ávidos pelas teatralidades musicais londrinas irrompe pelo átrio alcatifado. “Welcome!”, recebem as simpáticas meninas das vendas de merchandising. Agitam no ar os CD’s, os panfletos, as t-shirts – estão por todo o lado, promovendo mais um dos negócios paralelos à bilheteira.

Esta é uma máquina que se gere a si própria. Quem chega sem qualquer introdução até pode julgar que se trata de uma estreia ou novidade. Mas esta terça-feira de Setembro com casa cheia é só mais uma lotação esgotada, igual às que se têm repetido nos últimos dez anos. Sim, este espectáculo está a rodar há mais de uma década! A equipa de Ben Elton comemorou recentemente as quatro mil actuações, com a edição de um disco com os temas do musical que dão nova vida aos Queen. Desse álbum, a versão de “Bohemian Rhapsody” já atingiu o primeiro lugar votado para o single favorito no Reino Unido, e o espectáculo propriamente dito arrecadou o prémio Olivier Awards 2011, da BBC2 Radio.

E o pano sobe. A sala enche-se com os aplausos do público de etnias variadas, desconhecendo-se quem se senta nos camarotes. É bem provável que se encontre alguém socialmente relevante – o que quer que isso queira dizer –, ali já se sentaram músicos, artistas, políticos e realeza de todo o planeta. Todos aguardam pela produção galardoada, desde com o “Best New Musical” dos Theatregoers’ Choice Awards, até ao “Outstanding Production of a Musical” dos canadianos Dora Awards, passando pelo “Best Live Performance of the Year” dos Capital Gold Radio Legends Awards. E o que acontece? Temos música!

O musical tem a direcção de Ben Elton, a supervisão musical de Brian May e Roger Taylor, e conta com a coreografia de Arlene Phillips. O português Ricardo Afonso também já representou o personagem principal. Apresenta vinte e quatro temas dos que representam os – ainda –    êxitos dos Queen, e conta-nos a história de um jovem que lidera um grupo de pessoas na busca pela alma do Rock num futuro imaginário em que a música electrónica e industrializada assumiu a única oferta no mercado. Apesar de parecer um pouco arrojado em termos de linha temporal, a forma como o tema está abordado não deixa de ser interessante, quando este tipo de massificação já se mostra perante os nossos olhos.

Esta produção vai voltar a sair das terras de Sua Majestade. Mesmo depois de passarem a ter as suas próprias escolas, de saltarem para o mundo virtual através das aplicações para iPhone e iPad, de terem obtido sete milhões de espectadores na Grã-Bretanha e outros quinze milhões pelo mundo fora, já estão confirmadas actuações fora de fronteiras numa tour que irá passear-se no ano de 2013. O arranque desta tournée por arenas do mundo irá acontecer no próximo mês de Março, na Nottingham Capital FM Arena.

Por maior que seja a tentação de esmiuçar o conteúdo do espectáculo, deixo o repto a quem deseje descortiná-lo, pois acredito que estará pelos palcos do mundo por muito mais tempo. Sublinho a mensagem das entrelinhas do texto, que lembra como os grandes nomes levam vidas curtas, subjugados à pressão da sociedade, e deixando de fazer parte do nosso mundo num ápice. Um arrepio atravessou-me o pensamento quando, no meio da história, imortalizam nomes como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain e, claro está, Freddie Mercury. No entanto, ele próprio indagava: “Who Wants to Live Forever”?

Sem dúvida, um musical que me ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 19 de Outubro de 2012